Irão na mira de Trump. Regime balança entre diplomacia e retórica de guerra

O número de mortos em protestos no Irão atingiu os 2.571, indica o grupo de defesa dos Direitos Humanos HRANA, sediado nos EUA, enquanto os líderes religiosos da República Islâmica tentam abafar a maior onda de dissidência em anos, provocando ameaças de intervenção dos Estados Unidos.

Cristina Sambado - RTP /
Abedin Taherkenareh- EPA

Um novo confronto entre Washington e Teerão, após a campanha de bombardeamentos israelita e norte-americana contra o Irão no ano passado, que visou o seu programa nuclear, agravaria ainda mais a instabilidade no Médio Oriente, já abalado pela guerra de dois anos em Gaza.

O presidente dos EUA, Donald Trump, pediu na terça-feira aos iranianos que continuassem a protestar, prometendo que a ajuda está a caminho.

No entanto, as autoridades iranianas acusaram os EUA e Israel de fomentar a violência no país e atribuíram as mortes a "operativos terroristas" que recebem orientação estrangeira para incitar os protestos.Um responsável iraniano afirmou na terça-feira que cerca de duas mil pessoas foram mortas, a primeira vez que as autoridades divulgaram um número total de mortos em mais de duas semanas de protestos em todo o país.

O Irão continua sem acesso à internet desde 8 de janeiro. Os defensores dos direitos humanos acusam Teerão de usar isso para tentar encobrir a repressão.

Na terça-feira, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou à Al Jazeera que a decisão de cortar a internet foi tomada devido a "operações terroristas" cujas "ordens vieram do estrangeiro".

"Estamos preparados para qualquer eventualidade e esperamos que Washington faça uma escolha acertada. Qualquer que seja a opção escolhida, estamos prontos", acrescentou.
Julgamentos rápidos e públicos
O presidente do Supremo Tribunal do Irão, Gholamhossein Mohseni Ejei, afirmou esta quarta-feira, durante uma visita a uma das prisões de Teerão onde estão detidos os presos em protestos, que a rapidez na punição daqueles "que decapitaram ou queimaram pessoas" era crucial para garantir que tais acontecimentos não se repetissem.
Gholamhossein Mohseni Ejei prometeu julgamentos "rápidos" para os suspeitos detidos durante os protestos, que as autoridades classificaram como "tumultos", informou esta quarta-feira a televisão estatal.


"Se alguém ateou fogo a uma pessoa, a decapitou e depois queimou o seu corpo, devemos fazer o nosso trabalho rapidamente", disse o presidente do Supremo Tribunal do Irão durante uma visita a uma prisão que alberga pessoas presas durante os protestos.

Segundo as agências de notícias iranianas, Gholamhossein Mohseni passou cinco horas na prisão de Teerão a rever os casos e afirmou que os julgamentos devem ser "públicos".

Grupos de defesa dos Direitos Humanos reportam milhares de detenções desde o início do movimento, a 28 de Dezembro, e temem o uso generalizado da pena de morte.
A HRANA afirmou ter verificado até ao momento a morte de 2.403 manifestantes, 147 indivíduos ligados ao governo, 12 menores de 18 anos e nove civis que não participavam nos protestos.

De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, a primeira execução está marcada para esta quarta-feira.

“Mais de 10.600 manifestantes foram detidos… Erfan Soltani, de 26 anos, cuja execução estava marcada para 14 de janeiro, é um deles”, disse o Departamento de Estado numa mensagem em farsi no X.

O Hengaw, um grupo iraniano de direitos humanos curdos, informou que Erfan Soltani, de 26 anos, detido em ligação com os protestos na cidade de Karaj, será executado esta quarta-feira. As autoridades disseram à família que a sentença de morte era definitiva.

Já a Amnistia Internacional pediu ao Irão que “suspenda imediatamente todas as execuções, incluindo a de Erfan Soltani”.

“Agiremos com muita firmeza se o fizerem”, alertou o presidente norte-americano, Donald Trump, quando questionado na noite de terça-feira por um repórter da CBS News.Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional, o Irão é o segundo país que mais pessoas executa no mundo, a seguir à China, que, segundo consta, realiza milhares de execuções por ano, embora não existam números precisos disponíveis.

Trump afirmou ter cancelado todas as reuniões com as autoridades iranianas até que o "assassinato sem sentido" de manifestantes cesse e, num comentário posterior, disse aos iranianos para "preservarem o nome dos assassinos e dos abusadores porque pagarão um preço muito alto"."Ajuda a caminho"
Questionado sobre o que queria dizer com "a ajuda está a caminho", Trump disse aos jornalistas que teriam de descobrir. O presidente norte-americano afirmou que a ação militar está entre as opções que está a considerar para punir o Irão pela repressão.

Trump já tinha anunciado tarifas de importação de 25 por cento sobre produtos de qualquer país que faça negócios com o Irão – um grande exportador de petróleo. A China, que compra grande parte das exportações de petróleo do Irão, criticou rapidamente a medida.A missão iraniana na ONU acusou os Estados Unidos de tentarem derrubar o regime pela força, “orquestrando os distúrbios e o caos como modus operandi para criar um pretexto para a intervenção militar”.

Donald Trump ameaçou repetidamente com intervenção militar desde o início do movimento, a 28 de dezembro, um dos maiores desde a proclamação da República Islâmica em 1979.

Num telefonema no sábado, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, discutiram a possibilidade de intervenção dos EUA no Irão, segundo uma fonte israelita presente na conversaIrão promete retaliar
O Irão prometeu retaliar contra qualquer ataque, visando bases e navios israelitas e norte-americanos.Esta quarta-feira, o ministro iraniano da Defesa, Aziz Nafizardeh, avisou que o seu país atacará as bases norte-americanas na região caso os Estados Unidos lancem uma ofensiva contra a Nação persa.

"O Irão atacará as bases americanas se for atacado", afirmou o ministro da Defesa, segundo a agência de notícias local Mehr.

O ministro afirmou que "todas as bases americanas e as bases militares de outros países da região que auxiliem os EUA em ataques contra o território iraniano serão consideradas alvos legítimos".

“A resposta iraniana será dolorosa para os inimigos" caso o Irão seja atacado, acrescentou o oficial militar.

As autoridades iranianas intensificaram os contactos diplomáticos na região nos últimos dias, realizando telefonemas com as autoridades do Catar, da Turquia e do Iraque.O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, falou com o seu homólogo nos Emirados Árabes Unidos, revelou o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão esta quarta-feira. O país do Golfo Pérsico é um dos principais parceiros comerciais do Irão, além de ser um aliado próximo dos Estados Unidos e de Israel.

Abbas Araqchi disse ao xeque Abdullah bin Zayed al-Nahyan que "a calma prevaleceu (no Irão) graças à vigilância do povo e das forças de segurança" e que os iranianos estão determinados a defender a sua soberania e segurança nacional contra qualquer interferência estrangeira, acrescentou o Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros iraniano.

Na terça-feira, Abbas Araqchi falou com o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, e pediu-lhe que condenasse a "intervenção estrangeira nos assuntos internos" do Irão.

A França já tinha convocado o embaixador iraniano devido à repressão "insuportável e desumana" das autoridades iranianas aos protestos em todo o país.Protestos começaram a 28 de dezembro
A agitação, desencadeada pela grave situação económica, representa o maior desafio interno para os governantes do Irão em pelo menos três anos e ocorre numa altura de crescente pressão internacional sobre o Irão devido aos seus programas nucleares e de mísseis balísticos.

Os protestos começaram a 28 de dezembro devido à queda do valor da moeda iraniana, o rial, e transformaram-se em manifestações mais amplas e pedidos pela queda do regime clerical.

Para já, não há sinais de rutura na elite de segurança que possam derrubar o sistema clerical no poder desde a Revolução Islâmica de 1979.

O ayatollah Ali Khamenei, com 86 anos, já enfrentou desafios significativos, principalmente durante a guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025, desencadeada por um ataque maciço a instalações militares e nucleares iranianas.

As autoridades iranianas adotaram uma dupla abordagem, reprimindo os protestos, mas também considerando legítimos os protestos contra os problemas económicos.

c/ agências 
Tópicos
PUB